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Aquelas horas em que a Troika esteve em parte nenhuma

Artigo de Francisco Louçã.


Parece que o correspondente do Financial Times foi o jornalista que descobriu que tinha havido um buraco na agenda da delegação da troika em Lisboa, quando vieram negociar o resgate, pela Páscoa de 2011: os homens tinham desaparecido por um par de horas. O tempo do discreto pequeno-almoço, soube-se depois, foi passado no palácio da Nova Business School com alguns economistas lusos e foi um encontro feliz: “Eles (os da troika) estavam desejosos por ouvir as nossas ideias”, contou em Setembro desse ano o director da faculdade, José Ferreira Machado. “Num país pequeno como o nosso, as principais faculdades de economia são em certo sentido co-líderes da nação de um modo que não seria possível nos países maiores”, acrescentou ufano. “Somos o ponto de encontro das elites de hoje e de amanhã e a nossa obrigação é indicar aos futuros líderes do país as direcções possíveis”, explicou ainda. O resultado é sabido, o Memorando de Entendimento de 2011, que tem “a marca intelectual da nossa escola”, esclareceu Ferreira Machado ao Financial Times.

O director escreveu então, no prefácio a um livro com os seus “co-líderes”, que, “se levadas a cabo com entusiasmo e rigor, estas reformas mudarão Portugal para melhor” e que “a crise forçou a cooperação e silenciou as reservas sobre este modelo económico”. Do sucesso destas “reformas”, levadas a cabo com “entusiasmo e rigor”, já se sabe, e não é com essa questão que venho incomodar os leitores. O que quero sublinhar é a lógica explícita e a lógica implícita desta “marca intelectual”.

A explícita é o que Passos chamou o empobrecimento. Olivier Blanchard, economista chefe do FMI à época, tinha explicado que, para Portugal, “a redução dos salários nominais parece exótica, mas é o mesmo na essência que uma desvalorização bem sucedida”, ou uma “desinflacção competitiva”. Para isso, explicava ele, é necessário um “período sustentado de grande desemprego”, com um “ajustamento que é provável que seja longo e doloroso”, com “tantos anos de elevado desemprego quantos necessários para convencer os trabalhadores da necessidade do ajustamento”. Há poucos dias, um grupo de economistas do Banco de Portugal, suponho que incluindo um dos co-líderes que matabichou com a Troika nos idos de 2011, teorizou no mesmo sentido que os contratos colectivos devem ser limitados, dado que os salários baixos são a boa condição económica. Quando ouvir falar de “reformas estruturais” já sabe que é disto que se está a tratar, é Padaria Portuguesa.

É claro que tanta agressividade ideológica haveria de ser chamada à pedra. Mesmo dentro do FMI, alguns economistas revelaram o incómodo com a pós-verdade dos co-líderes da austeridade. Dois deles argumentaram que foi a desigualdade que conduziu à crise e que, portanto, agravar a desigualdade é amargo remédio.

Outros provocaram uma tempestade no FMI ao desmentirem as soluções da “marca intelectual”, suscitando um ralhete do seu chefe. O economista-chefe do Banco de Inglaterra, no mesmo sentido, derreteu a estratégia da austeridade. Ficam os factos a tirar as teimas: a estagnação e portanto a divergência entre economias, a crise permanente das dívidas e o risco de nova recessão dizem tudo.

Mas há também uma lógica implícita nesta “marca intelectual”, que é o cimento do orgulho tribal dos “co-líderes da nação”. Paul Romer, distinto académico e agora economista-chefe do Banco Mundial, escreveu uma diatribe contra essa “marca”, criticando os erros matemáticos na identificação dos modelos, o arbítrio na definição de causalidade, a convocação de variáveis imaginárias para explicar os acontecimentos, a regressão intelectual desta pós-realidade e o ambiente académico de devoção acrítica pelos co-líderes. Foi uma tempestade.

Mas a questão é esta: como é que pessoas inteligentes aceitaram trabalhar com hipóteses tão mirabolantes e blindar os seus modelos em relação à realidade? Uma resposta é a religiosa: converteram-se a uma noção transcendente que afirma que os mercados têm sempre razão porque a razão do comportamento humano é o egoísmo ambicioso. Ora, esta visão totalitária das motivações humanas conduz a uma fantasia perigosa, que promove uma ciência sem regras, como dois colegas meus lembraram há pouco, dando o exemplo de revistas científicas que passaram a publicar modelos matemáticos sobre a tortura. Um deles é um “modelo dinâmico de tortura em que a credibilidade das ameaças e promessas é endógena” e outro discute a “política de optimização da tortura”, à luz desta mundividência em que o mercado de coisas, de emoções e de poderes é sempre o dono de tudo. Passou-se o limiar da vergonha.

Mas isso já era assim lá atrás, quando o palácio dos economistas se entusiasmou com o desemprego de massas por um longo período e com o corte das pensões da segurança social, não é verdade?

Publicado no blogue Tudo Menos Economia.