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Flibusteiros à abordagem do Novo Banco

Artigo de Francisco Louçã.


Parece que o Banco de Portugal, ou Sérgio Monteiro, ou comentadores que transportam o recado, estariam decididos a tentar forçar a mão do governo para a impor a venda imediata do Novo Banco. Os felizes contemplados poderiam ser a Lone Star ou, se um golpe de teatro ainda o permitisse, o consórcio Apollo-Centerbridge, agora reforçado pelo carinho da família Violas, que anda de candeias às avessas com o BPI. Já hoje, não pode passar de 4ªfeira, escreve-se também em jornais económicos, sob a ameaça tremenda de os fundos norte-americanos se zangarem.

Se bem conheço o governo e outros decisores nesta matéria, esta chantagem não tem condições para triunfar e impor a entrega do Novo Banco como se não houvesse alternativas consistentes. De facto, até hoje as propostas de Monteiro para o banco têm sido todas perigosas e estas não o são menos.

A solução Monteiro só tem uma virtude clarificadora, a anuência do PSD e CDS. Monteiro, despachado por Passos Coelho para esta função e sempre próximo de Maria Luís Albuquerque, tem cumprido o que dele se esperava, generosamente pago para tanto. Embrulhou as contas do banco, prospectou compradores, ofereceu condições e agora proclama a solução que lhe sobrou.

Mas a solução é má, por três razões. A primeira é que os potenciais compradores são flibusteiros, ou aventureiros provados no mar alto da finança mundial. O fundo texano Lone Star nasceu na crise dos anos 1990 e lançou-se com o crash dos tigres asiáticos, comprando propriedade imobiliária e empresas em dificuldades. O seu negócio é a dívida e a destruição de empresas ou a sua venda a curto prazo. O fundo Apollo, como o Centerbridge, gerem em conjunto o triplo dos valores mas seguem o mesmo caminho: juntar fundos de pensões ou outros investidores para comprar dívida e conseguirem rentabilidades de curto prazo. Esta Apollo foi fundada por Leon Black, o braço direito de Michael Milken, o rei dos junk bonds, que veio a ser condenado à prisão em 1989 por crimes vários. Se um governo entregasse o terceiro banco do país em termos de activos líquidos a uma operação financeira desta natureza, só se poderia queixar de si próprio.

A segunda razão que assinala o perigo destes fundos é a sua forma de actuação, que decorre da sua natureza, ou do investimento de curto prazo que deve ser imediatamente ressarcido. Ao comprarem o Novo Banco, visto que lhes pode ser difícil distribuir desde logo dividendos para recuperarem o capital, estes fundos procurarão utilizar as garantias do Estado e os créditos fiscais (e já lá estarão cinco mil milhões), pedir novos empréstimos e retirar capitais do banco, espremendo também os créditos em curso na economia nacional para aumentarem as taxas de retorno. Em resumo, ameaçarão o banco, atacarão os clientes, arriscarão os depositantes.

A terceira razão é que este procedimento tem ainda um outro custo, o défice: o imediato, a contabilidade das contra-garantias, e o mediato, a perda fiscal ao longo dos anos. Se lhe dissessem que o Novo Banco foi vendido nestas condições, poderia ter a certeza que a sua carteira foi arrombada, mas não vejo o governo a alinhar nesta aventura.

A solução Monteiro tem que ser evitada, tanto mais que há alternativas a este caríssimo ultimato quarta-feirista. Primeiro, é melhor fazer as contas do Novo Banco com rigor. Segundo, o banco não pode continuar a viver arrastado para o fundo pelas operações não-bancárias do tempo passado e deve livrar-se delas. Terceiro, deve ser mantido como entidade separada e não incluída na CGD, mas deve integrar a banca pública para uma recapitalização ponderada ao longo do tempo e para uma gestão virada para o crédito que estimule a economia. Sobre os detalhes desse plano voltarei a escrever em breve.


Artigo publicado no blogue Tudo Menos Economia.