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Santander et al

Artigo de Ricardo Cabral.


O Santander divulgou ontem, quarta-feira, os resultados de 2015. O interessante é que reconheceu, só em 2015, ganhos com a compra do Banif de 283 milhões de euros (vide página 18 deste relatório)[1]. Ou seja, para o Santander a posição que adquiriu por 150 milhões às 23:30h de 20 de Dezembro de 2015 valia, no final do dia 31 de Dezembro de 2015, 433 milhões de euros. Um retorno líquido de +188,7%, em 11 dias “de trabalho”, ou o equivalente a uma taxa de 10,1% ao dia (foi mais elevada porque o Santander de certeza não transferiu os 150 milhões de euros no dia 20.12).

Nada mau. A taxa anualizada é astronómica, por conseguinte nem vou incomodar o leitor com tantos zeros (17)[2] e vou utilizar o sinal de expoente: +1,89E+17%. Devem ter existido no mundo, em 2015, poucas taxas de retorno comparáveis a esta (para o montante em questão) e, por conseguinte, o Santander é certamente dos recordistas, se calhar a par de alguns especuladores no franco suíço ou no rublo russo – mas, evidentemente, teve ajudas….

Claro que o Santander estará a ser modesto: os ganhos com a compra do Banif são, provavelmente, muito superiores ao declarado. O banco irá reconhecer, ao longo dos próximos anos, as mais-valias resultantes desta compra do Banif, mas já misturadas com o resto do negócio do banco. Por conseguinte, parece-me que o Santander é um sério contendente a uma inscrição no Livro Guinness dos Recordes do ano de 2015.

O interessante são as declarações do presidente do Santander Totta de que “o banco alterou, a pedido do Fundo de Resolução, a sua proposta de compra do Banif” sem esclarecer que alterações foram efectuadas. Será que haverá dúvidas que a generosidade tenha pecado por ligeiro excesso?

O presidente do Santander-Totta também argumentou que a garantia dada pelo Estado de 323 milhões de euros não poderá compensar futuras perdas. Esperemos que sim, mas a deliberação do Conselho de Administração do Banco de Portugal é clara: a dívida com contra-garantia do Estado entregue ao Santander “para evitar quaisquer dúvidas” (alínea c) p. 24) foi de 746 milhões de euros e acresce que os prejuízos do Banif são assumidos pela sociedade do Fundo de Resolução. Essa dívida garantida já foi entregue, como dizem, “para evitar quaisquer dúvidas”. Será que as palavras do presidente do Santander Totta significam que este irá devolver em breve 323 dos 746 milhões de euros da dívida contra-garantida pelo Estado que lhe foi entregue? Enfim, no meio de tantos milhões, o que é que são mais 323 ou menos 323 “para evitar quaisquer dúvidas”?

Folgo, pelo menos, que a polémica tenha aparentemente dado para conter um pouco a ganância…


Artigo publicado no blogue Tudo Menos Economia.

[1] Os resultados do 4T2015 do Santander e a respectiva apresentação sugerem que as mais valias de capital obtidas com o Banif são líquidas de qualquer provisão. Não identifiquei qualquer nota a esse respeito.

[2] Isto é, 189 seguido de 15 zeros e do sinal de percentagem.