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Nevoeiro no canal, Continente isolado

Artigo de António Bagão Félix.


União Europeia cresce em extensão e mingua em compreensão. Vai-se alargando o número de Estados-membros numa lógica sobretudo territorial e vai-se tornando cada vez mais uma desunião em assuntos essenciais.

Há dias, pudemos constatar a mediocridade estratégica e a conveniência táctica desta Europa. O Reino Unido conseguiu sacar da União uma alforria para tudo o que não lhe interessa na União. Um “in” para tudo o que lhe convém, um “out” para tudo o que não lhe agrada. Políticas sociais, financeiras, de imigração, de segurança ou fronteiriça são agora a base de mais um pacote de “opting-out”, a juntar aos anteriores, como se tratasse de coisa menor.

Nunca fui um entusiasta desta Europa atamancada, cheia de escapatórias, conduzida sem escrutínio democrático, a várias e injustas velocidades, tresandando a um contabilismo perverso. Mas, eis-nos chegados a uma Europa à discrição, como a que agora, aparentemente, Cameron conseguiu.

Creio estarmos na presença do princípio do fim do chamado “projecto europeu”. Das duas, uma: ou o PM britânico consegue ultrapassar o veredicto referendário de Junho e fica consagrada uma União desunida, em que outros Estados vão querer seguir, à sua moda, a cartilha britânica ou o “Não” vence e a derrocada vai alastrar. Uma União que, em vez de somar, prefere dividir. Com a agravante de o divisor tirar benefício dos dividendos da operação.

Uma coisa é certa: à parte alguns interesses lobistas e outros bem instalados, este “projecto europeu” não entusiasma ninguém. A política ficou de lado, os líderes não conseguem dissimular o incómodo do frete e deixou-se de agir para tão-só reagir tarde e lentamente.

Na União Europeia, todos os países são iguais, mas há os que contam mais, ainda que fora do euro e há os que contam muito pouco, mesmo que dentro do euro. Basta citar a Grécia. O ”Grexit” era um desejo mal disfarçado. O “Brexit” é, ao invés, uma angústia a evitar.

No Reino Unido vamos assistir a uma campanha curiosa dentro dos “tories”. De um lado, Cameron que, sem convicção, defende o seu lugar através do “Sim”; de outro lado, o carismático Boris Johnson – acredito que com mais convicção – a ver a oportunidade para, através da liderança pró “Não”, apear o actual líder. Um deles vai perder, ainda que não esteja seguro que o outro possa vir a ganhar…

Há um ponto, porém, em que é preciso perceber como o sistema eleitoral britânico torna mais relutante a partilha de soberania. Sendo um sistema maioritário e uninominal, a relação de cada deputado com a sua área de circunscrição eleitoral é mais profunda e escrutinada e disso os membros do parlamento não abdicam, ao contrário da relação mais formal do que substantiva dos deputados em outros parlamentos.

Ao princípio declaratório europeu de “ever closer union” veio agora acrescentar-se o júbilo de Cameron “never closer union”.

A célebre frase, alegadamente provinda de uma manchete jornalística nos anos 30 do século passado e noutro contexto, assume agora um renovado significado: “Fog in Channel – Continent Cut Off” (“Nevoeiro no Canal da Mancha. Continente isolado”).


Publicado no blogue Tudo Menos Economia.