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Qual é o seu decil?

Artigo de Vítor Junqueira.


Temos todos uma ideia acerca da nossa posição na distribuição de rendimento na sociedade portuguesa. Temos o quê?, perguntarão alguns. Queria dizer que todos sabemos dizer se somos pobres ou se somos ricos, mesmo que a maior parte de nós se queixe de ser pobre e que apenas alguns, talvez se contem pelos dedos da mão, admitam ser ricos. O senso comum ajuda à resposta, mas, como qualquer economista lhe dirá, o senso comum está sobrevalorizado. Vamos então aos factos (ou à representação deles, para sermos rigorosos).

Todos os anos, o INE realiza o Inquérito às Condições de Vida e Rendimentos (ICOR, ou EU-SILC, na denominação inglesa). É a partir deste retrato das famílias portuguesas baseado nos seus rendimentos anuais e nas suas condições de conforto (ou na falta delas) que se constroem indicadores como a taxa de pobreza ou a taxa de privação material. É a partir desta fonte, também, que se define a distribuição de rendimento da população residente em Portugal. Ou seja, podemos por esta via saber quanto ganham os 10% ou os 20% mais pobres ou os 10% ou os 20% mais ricos, estudar as desigualdades ao longo da distribuição, comparar com outras sociedades europeias, entre muitas outras coisas.

A informação do ICOR/EU-SILC ajuda-nos, então, a perceber onde nos colocamos na distribuição de rendimento. Se somos muito ou pouco pobres, se somos pouco ou muito ricos, sempre por comparação às outras pessoas que connosco partilham residência em Portugal. E o leitor pode também sabê-lo, porque o Eurostat atualizou até 2013 os valores dos decis da distribuição. O quê? Explicando:

O decil

Imagine que dispõe por ordem crescente do seu rendimento anual todos os indivíduos residentes em Portugal. Imagine ainda que divide essa longa fila em 10 pedaços iguais (ou seja, cada pedaço terá mais ou menos um milhão de pessoas). Há quem chame decil a cada um desses pedaços (como na pergunta do título deste post). De maneira mais restrita, em linguagem estatística, o decil é o valor do indivíduo que está junto à fronteira em cada um daqueles pedaços.

Mas o que importa aqui saber é que o valor do decil publicado pelo Eurostat o vai ajudar a perceber em que posição da distribuição se encontra. E, para tal, vai ter que seguir estes passos para chegar ao “rendimento por adulto equivalente” do seu agregado:

1. Considere todas as pessoas que vivem consigo e que consigo partilham as despesas fundamentais, sejam parentes ou não.

2. Calcule o número de “adultos equivalentes” = 1 (para o primeiro adulto) + 0,5 por cada um dos restantes indivíduos com 14 ou mais anos + 0,3 por cada criança com menos de 14 anos.

Exemplos

– Um casal com uma criança de 10 anos. Número de adultos equivalentes = 1 + 0,5 + 0,3 = 1,8.
– Dois adultos, sem qualquer ligação de parentesco. Número de adultos equivalentes = 1 + 0,5 = 1,5.
– Um indivíduo que vive sozinho. Número de adultos equivalentes = 1.

3. Some os rendimentos líquidos anuais de todas estas pessoas.

4. Divida o rendimento total obtido pelo número de adultos equivalentes calculados no passo 2. Parabéns, chegou ao seu “rendimento por adulto equivalente”. Não é mais do que uma espécie de rendimento per capita.

Fica a faltar apenas ver em que ponto da distribuição se encontra, afinal. E, para isso, tem os decis publicados pelo Eurostat e reproduzidos no quadro abaixo.

Por exemplo, se o seu “rendimento por adulto esquivalente” for 10 mil euros anuais, o seu decil é, em linguagem corrente, o 7.º. Ou seja, naquelas 10 secções em que dividiu a longa fila de pessoas residentes em Portugal e ordenadas pelo seu rendimento, encontra-se na 7.ª. Há pelo menos 60% da população que é mais pobre.

Surpreendido pela posição que ocupa face aos seus vizinhos?
Agora pense nos que estão atrás de si na tal fila.


(Artigo inicialmente publicado no blog Buracos na Estrada)