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É entre os mais pobres que a crise mais se faz sentir

Artigo de Vítor Junqueira.


Se fez o teste que propus há dias, para saber por si mesmo em que posição da distribuição de rendimentos se encontra, talvez tenha ficado surpreendido com o resultado. Talvez não imaginasse que estaria tão “bem colocado”. Talvez não imaginasse haver assim tanta gente em situação pior que a sua. E o choque pode ser ainda maior se ficar a saber que foi nessas posições mais desfavoráveis que a crise mais se fez sentir. Vamos, uma vez mais, aos factos.

Os indicadores da pobreza e da desigualdade já o vinham demonstrando, bem como os relatos daqueles que trabalham no terreno junto dos mais necessitados: são os mais pobres aqueles que mais são afetados pela crise. Com a recente publicação pelo Eurostat de apuramentos mais desagregados do Inquérito às Condições de Vida (ICOR/EU-SILC) que o INE realizou em 2014, ficámos a conhecer ainda melhor a realidade das famílias portuguesas durante o ano de 2013. Ficámos a saber, por exemplo, que entre os 10% mais pobres, o rendimento médio caiu 22,7% por comparação com 2009, atingindo valores que já não se conheciam desde 2004.

Rendimento médio por adulto equivalente do 1.º decil – variações face a 2009

Fonte: Eurostat, EU-SILC

Repare que estamos a falar do primeiro decil, dos 10% mais pobres, ou seja, de cerca de um milhão de indivíduos, e de rendimentos na ordem dos 2400 euros ao ano (valor estimado para 2013) [*]. É rendimento anual. E é uma média, implicando que há muitas pessoas em situação ainda pior. E foram estes que mais foram abalados pela crise.

[*] 2400 euros para o caso de um indivíduo sozinho, o que é equivalente, para um casal com dois filhos, por exemplo, a valores anuais próximos dos 5000 euros (para toda a família!). O que torna estas duas situações equivalentes é a aplicação de uma escala (conforme fez no cálculo do rendimento por adulto equivalente do seu agregado, no teste de há dias).

Foram estes 10% os únicos a perder rendimento? Longe disso. A quebra de rendimentos fez-se sentir ao longo de toda a distribuição, mas a intensidades diferentes. E é precisamente nos escalões de rendimento mais baixos que a intensidade da quebra é mais elevada. O gráfico seguinte volta a mostrar a redução nos rendimentos médios do primeiro decil, mas agora junta-a à verificada no último decil, ou seja, junto dos mais ricos. Se os 10% mais pobres perdiam 22,7% do rendimento, os indivíduos situados no extremo oposto da distribuição, apenas perdiam… 7,6%.

Rendimento médio por adulto equivalente dos 1.º e do 10.º decis – variações face a 2009

Fonte: Eurostat, EU-SILC

Se ao grupo dos 10% mais pobres juntarmos os 10% imediatamente seguintes, continuamos a verificar fortes discrepâncias face ao que se tem vindo a suceder na zona superior da distribuição. O gráfico seguinte coloca em perspetiva todos os quintis (isto é, grupos de 20% da população, ordenados pelo rendimento), fazendo-os partir de um índice idêntico em 2009. Os 20% mais pobres chegam a 2013 com um rendimento médio a valer 83,5% do que tinham em 2009 (perdem 16,5%, portanto). Os 20% mais ricos chegam ao mesmo ano com um rendimento médio que vale 93,9% do de 2009 (perdem apenas 6,1%).

Evolução do rendimento médio por adulto equivalente, por quintis, 2009-2013 (2009=100)

Fonte: Eurostat, EU-SILC

O que aconteceu, no âmbito deste processo complicado a que chamamos crise, para que tenha ocorrido este desequilíbrio e esta desproporção de impactos? Podemos especular, à falta de um estudo mais aprofundado, com os cortes induzidos em algumas prestações sociais dirigidas a esta população mais desfavorável, como ocorreu no Rendimento Social de Inserção ou no Complemento Solidário para Idosos. O desemprego também terá desempenhando um papel determinante, senão o papel mais importante, ao ter feito deslocar um grande número de pessoas para posições inferiores na distribuição de rendimento. Será seguramente o caso de algumas das transições entre decis que os dados permitem apurar e que são mostradas no seguinte gráfico. Por referência ao decil que os indivíduos ocupavam em 2010, mostra-se a proporção de casos em que houve uma queda de dois decis ou mais, de um decil, se houve manutenção ou ainda se houve subida de um ou de mais decis.

Transições entre decis de rendimento por adulto equivalente, 2010-2013

Fonte: Eurostat, EU-SILC

Ficamos desde logo a saber que quase metade do primeiro decil não se mexeu. 49% dos indivíduos que ali estavam em 2010, assim permanecem em 2013. E mesmo que o indicador esteja construído na lógica da transição entre 2010 e 2013, com base nos decis de partida, podemos ainda assim identificar grande parte daqueles que vieram parar ao primeiro decil. Aos 49% que permanecem, devemos somar os 18% que desceram desde o segundo decil (podemos somar à vontade, dado que os decis têm dimensões semelhantes, mais ou menos um milhão de pessoas em cada). E podemos ainda somar os 14% que caíram dois decis a partir do terceiro. Ou seja, ficamos com cerca de 19% de casos em que a queda foi ainda maior. São perto de 200 mil indivíduos que, pelo desemprego ou outros motivos, caíram dos decis acima do terceiro. Podemos ainda ver que a maior turbulência se dá nos decis centrais (é aqui que as manutenções são menos frequentes), o que pode também atestar as rápidas e intensas mutações no mercado de trabalho, tradicionalmente associado à classe média.

É um gráfico com muita informação, ainda que incompleta. Um último detalhe, que fica para outras leituras: o último decil, o dos 10% mais ricos, é um dos que menos quedas e mais permanências regista.


(Artigo inicialmente publicado no blog Buracos na Estrada)