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Tsipras e Mitterrand

Artigo de Jorge Bateira.


(publicado em http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2015/09/tsipras-e-mitterrand.html)

Na noite de 22 de Março de 1983, véspera do dia em que se esperavam decisões cruciais, François Mitterrand pediu conselho a algumas personalidades sobre o que fazer perante a crise que a França enfrentava. A sua política económica de relançamento da economia pela procura interna, num contexto de recessão internacional após a crise petrolífera de 1979, confrontava-se com o agravamento do défice externo e com a especulação levada a cabo pela finança internacional, manifestamente hostil às nacionalizações já realizadas. O mecanismo de taxas de câmbio fixas, no quadro do Sistema Monetário Europeu (SME) da época, estava sob pressão especulativa e já tinha havido duas desvalorizações. Para manter a sua orientação política, Mitterrand teria de abandonar o SME, desvalorizar substancialmente o franco, controlar os fluxos de capitais e acelerar a sua política industrial de médio prazo para substituir importações de equipamento alemão. Teria de aceitar um pouco mais de inflação para estancar o desemprego e, condição central, seria forçado a suspender a participação da França na CEE para poder executar o seu programa político e o do PSF.

Sabemos que Mitterrand decidiu seguir a linha alternativa defendida por, entre outros, Jacques Delors. Preferiu a “política de rigor” (hoje “austeridade”) orçamental e subiu a taxa de juro para atrair capitais especulativos, segurando a taxa de câmbio, desse modo travando a inflação importada e, reverso da medalha, aumentando o desemprego. Ou seja, optou pela livre circulação dos capitais e a recuperação da “credibilidade” da França nos mercados financeiros, desiludindo as classes populares que tinham festejado na Bastilha a sua vitória e deixando cair a estratégia de desenvolvimento industrial já iniciada. A competitividade viria da “contenção salarial” em vez da desvalorização da moeda. Esta guinada política foi então justificada pela necessidade de “fazer uma pausa e comprometer a França com o caminho da integração europeia” para, mais tarde e numa escala superior, se acabar com a especulação através da criação de uma moeda única e da coordenação de outras políticas que levariam à convergência real das diferentes economias. A conquista da confiança dos mercados ficou selada com a reprivatização dos bancos e a liberalização do sistema financeiro francês (ver Liêm Hoang-Ngoc, “Refermons la parenthèse libérale”, La Dispute).

O drama de Tsipras, na noite do referendo que permitiu aos gregos recusar a chantagem e dizer NÃO aos Memorandos, foi estruturalmente semelhante ao de Mitterrand naquela noite de 1983. A sua formação cultural e política foi, tal como a de Mitterrand, profundamente marcada pelo ideal do europeísmo, pela confusão entre nacionalismo e soberania e por um entendimento da globalização que tolhe a iniciativa transformadora à escala nacional. Tendo que escolher entre a ruptura com um projecto europeu que reconhece ser antidemocrático e prejudicial ao povo grego e a manutenção da Grécia num espaço político supranacional, à espera de melhores dias, Tsipras foi fiel aos valores do europeísmo que defendeu nas eleições para o Parlamento Europeu.

A votação do próximo dia 20 é apenas o começo de uma nova etapa na vida política grega. Tsipras bem pode dizer que não tinha alternativa. Ser-lhe-á lembrado pelos ex-camaradas no Syriza que, em momentos cruciais, um dirigente político lidera. Um líder não se sente obrigado a seguir a opinião pública dominante no momento. Encurralado, fez bem ao propor um referendo (por más razões, porque esperava perder para obter um mandato de capitulação) e, depois, tinha a obrigação de ser consequente com o resultado, recusar a austeridade fazendo a pedagogia da saída do euro. Mitterrand ficará lembrado por ter metido o socialismo na gaveta. Tsipras será lembrado por ter dado o golpe de misericórdia no europeísmo de esquerda.